Foto: Stella Paiva

Dia Nobre, nome social de Edianne Nobre, nasceu em Juazeiro do Norte no estado do Ceará. Sempre gostou de ouvir histórias, fossem as aventuras narradas pelo seu avô ou os ditos que ouvia dos transeuntes, enquanto acompanhava sua saudosa avó nas romarias. Foi essa mesma curiosidade que, ainda na infância, a levou a participar de grupos de leitura na biblioteca do Sesc.

Nos anos 2000, aos 15 anos, integrou a publicação de alguns folhetos lançados pelo grupo Sociedade dos Cordelistas Mauditos que apresentavam uma postura crítica não só sobre o discurso do “descobrimento” do Brasil, mas também em relação à forma como o folheto tradicional representava as mulheres, os negros e os gays. Publicou ainda em pequenas coleções do Projeto Performance Poética, também no Sesc de Juazeiro do Norte.

Em 2002 iniciou o curso de História na Universidade Regional do Cariri (URCA-Crato-CE), onde seu prazer de contar e ouvir narrativas, tornou-se sua profissão. Após ler o livro Milagre em Joaseiro, do Ralph Della Cava, e perceber o apagamento da história das mulheres da história local, decidiu pesquisar a trajetória social das mulheres no Cariri, trabalhando principalmente com a categoria de análise de gênero.

Nesse momento, encontrou não só o tema da sua pesquisa acadêmica, que a acompanhou por mais de dez anos (da graduação ao doutorado), mas também viu a oportunidade de trazer a baila a narrativa esquecida e marginalizada de Maria de Araújo, uma mulher negra e pobre, do sertão do Cariri. A vida e adversidades enfrentadas pela beata, reprimida por uma igreja machista e excludente, renderam-lhe dois livros, “O Teatro de Deus”, resultado da dissertação do Mestrado (UFRN) e “Incêndios da Alma”, tese do doutorado (UFRJ), este último vencedor do prêmio CAPES de teses.

Logo após o doutorado, em 2015, mudou-se para Petrolina, no Pernambuco, depois de assumir o cargo de professora na UPE. Entre 2016 e 2017, foi colunista do Site Ponto Crítico publicando textos sobre feminismo, cultura política e sociedade. Em 2019, durante o Pós-doutorado na Universidade Federal do Maranhão, decidiu iniciar um novo estudo. Iniciou um novo projeto de leitura de obras produzidas por mulheres. Fundou um grupo de pesquisa centrado na discussão de estudos feministas na universidade em que trabalha e no mesmo ano coordenou o Clube Lesbos, no qual eram discutidas obras de autoras lésbicas e bissexuais.

Ainda naquele ano, retomou uma coleção de diários que lhe acompanharam ao longo da sua trajetória acadêmica: se a vida da beata estava espalhada em arquivos de dioceses no Brasil e na Biblioteca do Vaticano, a sua, estava descrita, em verso e prosa, naqueles pequenos cadernos. Para contar a história de Maria de Araújo, precisou morar em várias cidades, das praias paradisíacas de Natal, ao céu cinzento de São Paulo, passando pelas ruas planejadas de Brasília, indo para o caótico Rio de Janeiro, até as ruas infestadas de turistas do Vaticano. Acostumou-se com as mudanças constantes e com a necessidade de se reinventar a cada chegada/partida.

Nessa catarse, entre diários antigos e leituras sobre as mulheres, percebeu que tinha necessidade de ser lida, não somente, como historiadora, alicerçada em dados e fontes catalogadas, mas como mulher que escreve. Assim, inspirada pela obra de autoras como Elena Ferrante, Carmem Laforet, Rupi Kaur, Angélica Freitas, Conceição Evaristo, Jarid Arraes e Nathalia Borges Polesso, decidiu iniciar o processo de edição e publicação das poesias e contos que escreveu em seus cadernos.

Em dezembro de 2019, decidida a encarar o desafio de ser escritora no Brasil, iniciou a mentoria de escrita com a cordelista e escritora Jarid Arraes e em junho de 2020 lançou o seu primeiro livro de poesias pela Editora Penalux.

Ainda em 2020, participou da Antologia Visíveis e teve o original do seu segundo livro, Boneca Russa, finalista no Prêmio Caio Fernando Abreu do Festival Mix Brasil.