maurício,

sinto saudades daquele dia em que ficamos em ponta negra ouvindo músicas. tenho uma saudade danada daquele dia. a conversa mais sincera que eu já tive.

você cantarolava aquela música do cartola e eu não sabia o que fazer com as mãos. foi como se o tempo parasse. como se ausência não houvesse. era como cacos-rastilhos-resquícios de vida que se encontram.

dia desses fui à farmácia e comprei um sabonete phebo que foi o sabonete da minha infância. de quando eu não entendia porque ph tinha som de f; do cheiro da minha avó e dos lençóis da cama dela (ela colocava a embalagem na fronha pra ficar com o cheirinho); do café quente com cuscuz; do baião de dois com queijo coalho e pequi; do mosquiteiro que cobria a cama de casal; do guarda-roupas onde me escondia quando brincava com meus irmãos. aspiro o cheiro do sabonete phebo com saudades e amor enquanto me pergunto: quantas histórias uma memória pode contar?

você também usava phebo, maurício. nos dias difíceis você dizia que

não há nada que um bom banho não cure.

não sei quanto tempo se passou desde que aquela porta foi fechada. não sei mais se era dia ou se era noite, não sei se estava na praia ou no campo ou se em um hospital ou necrotério. não me sentia viva, não percebia minha respiração ou o sangue correndo nas minhas veias, não sentia meus pés, nem minhas mãos, nem meu sexo.

uma luz brilhava longe, no meio da escuridão.

eu queria ir até você, mas na realidade, era uma vontade vazia, cheia de preguiça, de tanto faz. entre a luz e eu havia um silêncio profundo, não o silêncio da ausência de barulho, mas um silêncio pesado, denso como o universo. esse silêncio que viaja anos-luz, que não tem começo nem fim, que vive em um cemitério de estrelas que ainda insistem em brilhar pra nós aqui na terra.

sabe, maurício, eu queria resetar a existência.

viver não tem o menor sentido. o vizinho escutou música alta o dia inteiro. alguém botou fogo no mato ao lado de casa. hoje eu gritei três vezes bem alto na janela. os gatos se assustaram. minha garganta ficou doendo. foi bom. li que a conceituação da estrutura masoquista mudou para autoderrotista. você riria disso.

olho agora, pela janela, para a vizinha no outro lado da rua.

parece uma mulher comum, de meia idade. fuma um cigarro, olhando a fumaça subir para o céu. ela também me vê e faz um aceno breve, como se dissesse, se não fosse a pandemia, talvez nunca esse aceno. você iria gostar dessa vizinha, maurício. ela fuma e bebe café o dia todo.

na quarentena, somos janelas que antes nunca abertas, agora se tornam farol.
me pergunto se as telas de proteção que envolvem nossas janelas evitam o pulo dos gatos ou o nosso.

eu lembro quando você pulou, maurício. todas as vozes emudeceram em um instante.

ainda era um mundo sem pandemia, máscaras só as de carnaval igual as que usávamos na festa. eu sempre vou te odiar por isso, maurício. pelo pulo performado diante do público. você não poderia fazer isso na solidão de sua casa, não é?

tinha que haver performance-gente-sorrindo-se-olhando-estupefata

ele pulou mesmo? e lá no fundo do abismo uma calçada impregnada de vísceras nunca mais o pôr-do-sol em ponta negra.

agora, só o mundo girando como um moinho.

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