eu demorei muito a me perceber como mulher.

eu olhava para outras mulheres e pensava, ela é mais magra-bonita-inteligente. era uma vida de comparações. logo eu, que detesto ser comparada. nós mulheres, desde muito cedo, somos algemadas e amordaçadas em corpetes-sutiãs-calcinhas-de-renda. eu tardei a gostar do meu cabelo cacheado, chamado de ruim-enjubado-sarará-bombril. tardei a olhar com carinho pro meu corpo cheio de curvas-gordura-localizada-na-barriga-pouca-bunda-pernas-finas. eu demorei a usar um short.

a gente é ensinada a se conformar com a dor. alisa o cabelo com soda cáustica. corta a cutícula com alicate afiado às-vezes-arranca-um-bife-inflama-sai-pus-amarelo-quase-laranja. arranca os pelos com cera quente. aperta o corpo em uma cinta. usa salto tão alto que entorta os tornozelos. em alguns lugares, ainda perdemos calcanhares-línguas-úteros-clitóris-dedos.

o mundo gosta de nos sangrar. como minha avó que matava as galinhas do terreiro pegando pelo pescoço corta-a-faca-afiada-deslizando-no-gogó. depois o sangue virava molho pardo pra ser devorado no almoço de domingo.

eu tinha nojo dos meus líquidos-muco-saliva-ciprina-suor. quando é sangue que sai da gente, dissimulamos os espasmos do ventre-pele-pés-couro-cabeludo. a gente compra propaganda de absorvente e buscopan. tudo branco-alvo-imaculado e a mulher feliz como se nada.

eu tardei a entender o sofrimento das mulheres que não pareciam comigo da bisavó indígena sequestrada pelo branco meu bisavô. da avó mestiça de calos nas mãos pelo trabalho na roça. da tia negra violentada por um homem que tinha três vezes a sua idade.

olhos-de-cigana-oblíqua-não-é-elogio.

eu achava que mulher era tudo dissimulada-falsa-louca-mentirosa. e eu não sou uma mulher? me perguntei, certo dia ao olhar pra outra de mim na rua-salão-de-beleza-universidade-shopping.

você não faz ideia do quanto é doloroso perceber-se mulher. é como olhar direto pro sol em dia de eclipse. queima a córnea lá no côncavo. você não faz ideia do quanto é pungente enxergar outra mulher.

é queimar a mão em uma fogueira, descamar os conceitos misóginos que nos foram inculcados até o fundo do osso. então, eu pinto o cabelo, faço um corte novo, uso nas unhas uma cor que nunca usaria. me olho no espelho e me enxergo outra me enxergo nas outras

e as outras no espelho me enxergam também.

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