eu esperava a água do café ferver quando a cabeça da onça apareceu no meu feed. demorei alguns segundos pra processar a imagem. ela tinha olhos bem abertos, os dentes pra fora como quem rugia. a cabeça jazia no chão amarela como o sol do entardecer e ainda não eram oito horas da manhã.

no fundo dos olhos explodia um universo inteiro. eu acho que fiquei cega por algum momento. queimei minha mão enquanto coava o café. doeu, mas não tanto quanto ver a cabeça da onça rolando na minha frente. ver a morte em pixels é coisa pós-moderna.

enquanto tomo o café da manhã, eu posso sentir o fedor dos pelos queimando e o som do baque quando ela caiu. eu posso sentir o calor do fogo, as patas em brasa, a boca sem saliva. não tem água, não tem água. a fumaça do café me atravessa a garganta.

tento comer um pedaço de pão, mas meu estômago embrulha. acho que a cabeça foi a última a morrer, deve ter dado tempo de ver uma árvore caindo em chamas e o vermelho tomando conta da paisagem.

eu cresci numa cidade que tinha uma parte da floresta amazônica, mas nunca vi uma onça de perto.

queimar onça viva não custa votos. quantos anos de governo são necessários pra queimar por inteiro o corpo de uma onça que mede cento e cinquenta mil quilômetros quadrados?

agora quando durmo, tenho esse sonho recorrente. me vejo nessa floresta em fogo, nas minhas mãos, um fósforo, e, aos meus pés, a cabeça da onça de olhos abertos.

Imagem: Portal Goiás

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